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quarta-feira, 9 de março de 2011

Tenente da PM tortura dupla em seccional


Uma cena improvável, com inspiração típica da certeza de impunidade, foi registrada na madrugada de ontem (8) em frente à entrada da Seccional de São Brás. Dois homens detidos por policias da 10ª ZPol foram obrigados pelo tenente Erick a se ajoelharem e repetirem 10 vezes os próprios nomes e dizerem: “Eu não vou roubar mais! Eu não vou mais roubar!”. Em seguida o oficial encerrou a “aula” de tortura disparando um tiro ao lado das duas vítimas.

A delegada Márcia Contente, que estava no plantão da seccional, foi surpreendida pelo barulho do disparo e foi até o local verificar a situação e presenciou os dois homens ainda ajoelhados em frente à delegacia. Ao se inteirar do fato ela informou ao tenente que se tratava de um flagrante de caso de tortura. Ela comunicou então o caso ao comando da ZPol que se comprometeu apresentar o tenente Erick para prestar depoimento sobre o fato.

A delegada Márcia Contente acionou a Divisão de Crimes Funcionais (DECRIF) e a corregedoria da Polícia Militar para que fosse instaurado processo para apurar o caso. O tenente Erick permaneceu na sala da 10ª ZPol, localizada no prédio da seccional.

Em entrevista, as duas vítimas do caso de tortura, Luciano Rodrigues da Silva, 22 anos, Elias Douglas de Almeida, de 26 anos, relataram que foram presos quando dormiam em uma parada de ônibus localizadas na travessa Castelo Branco com a avenida José Malcher. A companheira de Luciano também foi detida, mas não passou pelo constrangimento que Luciano e Elias foram submetidos.

Luciano contou que eles estavam dormindo em frente a uma loja localizada na travessa Castelo Branco e que por volta de 2h30 a viatura 9221 chegou ao local e os policiais ordenaram que eles saíssem do local. “Nós saímos e fomos para a parada de ônibus. Um cara passou por nós correndo e sendo perseguido por outra viatura. Quando passaram por nós eles pararam e passaram a revistar e trouxeram a gente pra cá (seccional).

Vítimas “sumiram” na hora do depoimento

Na seccional, Luciano, a esposa e Elias foram apresentados à delegada Márcia Contente pelo tenente Erick, que foi comunicado da prisão pelos policiais que prenderam os três suspeitos. A delegada informou ao tenente Erick que não poderia fazer o procedimento, pois não havia provas ou sequer vítimas para acusar o trio.

A declaração teria revoltado o oficial, que então conduziu Elias e Luciano para a entrada da seccional e, no canteiro em frente à escada de acesso do prédio, colocou os dois homens ajoelhados. Em seguida, mandou que eles repetissem o nome e dissessem por 10 vezes a frase: “Eu não vou mais roubar! Eu não vou mais roubar!”.

TIRO

Toda a cena foi acompanhada pelos policiais que prenderam os acusados. Em determinado momento, Elias teria se recusado a continuar a repetir as frases. Foi nesse momento que o tenente Erick sacou uma arma, se aproximou de Elias e efetuou um disparo ao lado dele. A delegada Márcia Contente resumiu bem a situação. “Se isso acontece em frente de um prédio policial, o que não acontece nas periferias quando são feitas as prisões?”

Logo depois, uma equipe da Decrif esteve na seccional, mas ninguém deu declarações oficiais sobre o caso. Elias, Luciano e a esposa foram encaminhados para a sede da Decrif, no prédio da Delegacia Geral, onde seria feito o procedimento. Porém, o mais inusitado ocorreu justamente naquele local.

As três vítimas teriam sido colocadas em uma sala separada, enquanto o tenente Erick seria ouvido em depoimento. Quando foram chamados a depor, descobriu-se que Elias, Luciano e a esposa haviam sumido do local. O “sumiço” providencial impediu que qualquer procedimento fosse realizado.

O suposto desaparecimento de Luciano, Elias e a esposa não foi explicado oficialmente por ninguém. A assessoria da Polícia Militar foi procurada por telefone, mas, em virtude do feriado, não foi possível ouvir a versão da corporação sobre o caso.

Por outro lado, segundo falou posteriormente o delegado Hélio Fernandes, diretor da Divisão de Crimes Funcionais da Corregedoria, “realmente as vítimas não foram encontradas quando procuradas no pátio da Decrif, onde estavam fumando e aguardando a hora do seu depoimento”.

Ainda segundo o policial, “eles somente foram encontradas por volta das 15h já em Mosqueiro, numa das praias, se divertindo”. Por conta disso, informou o delegado, na impossibilidade de ouvi-los no flagrante, o processo foi transformado em inquérito policial e as vítimas serão ouvidas na próxima sexta-feira (11), na Decrif.

Fonte:Diário do Pará

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